Viajar de moto por outro país é o sonho de muitos motociclistas. Mas quem está planejando a primeira viagem de moto para o exterior logo percebe que existe muito mais envolvido do que escolher um destino, alugar uma motocicleta e sair para a estrada.
Mas existe uma diferença enorme entre sonhar com uma viagem internacional de moto e planejá-la corretamente.
Quem está acostumado a viajar pelo Brasil pode imaginar que basta escolher o destino, comprar a passagem, alugar uma moto e montar um roteiro no GPS. Na prática, uma viagem internacional envolve documentação, regras de trânsito, seguros, contratos de locação, bagagem, clima, navegação, reservas e uma série de decisões que podem determinar se a experiência será inesquecível — pelos motivos certos ou errados.
Se você está planejando sua primeira viagem de moto para o exterior, conhecer antecipadamente os erros mais comuns pode evitar problemas, gastos desnecessários e, principalmente, fazer com que você aproveite muito melhor cada dia da viagem.
1.Achar que basta levar a CNH brasileira
Esse é um dos primeiros pontos que precisam ser verificados.
Dependendo do país onde você pretende pilotar, podem existir exigências específicas relacionadas à carteira de habilitação brasileira e à Permissão Internacional para Dirigir (PID).
A PID funciona como uma tradução padronizada das informações da CNH para outros idiomas e pode facilitar a identificação da habilitação brasileira pelas autoridades estrangeiras. Ela, porém, não substitui a CNH original.
Por isso, antes de viajar, verifique as regras dos países pelos quais pretende passar e também as exigências da empresa responsável pela locação da motocicleta.
E atenção a outro detalhe: se o roteiro atravessar vários países, não presuma que as regras serão exatamente iguais em todos eles.
Documentação é uma daquelas coisas que parece pouco importante até o momento em que faz falta.
2.Escolher a moto somente pelo preço da diária
Encontrar uma motocicleta mais barata não significa necessariamente fazer um bom negócio.
No aluguel de moto no exterior, é preciso observar muito mais do que apenas o valor anunciado na diária.
Antes de reservar, procure entender:
- modelo e categoria da motocicleta;
- limite ou franquia de quilometragem, quando houver;
- política de combustível;
- equipamentos incluídos;
- disponibilidade de malas laterais e top case;
- assistência em caso de pane;
- condições para cruzar fronteiras;
- seguro oferecido;
- valor da franquia;
- condições de cancelamento;
- exigências para retirada da moto.
Uma diária aparentemente mais barata pode deixar de ser vantajosa quando começam a aparecer cobranças adicionais.
Também vale lembrar que nem sempre o modelo escolhido no momento da reserva é garantido exatamente naquela configuração, dependendo das condições da locadora.
Leia o contrato e confirme os pontos importantes antes de viajar.
3.Não entender como funciona o seguro e a franquia da motocicleta
Esse talvez seja um dos pontos menos compreendidos por quem aluga uma moto pela primeira vez no exterior.
Ter um seguro incluído na locação não significa necessariamente que qualquer dano estará integralmente coberto.
Pode existir uma franquia, além de exclusões e responsabilidades específicas previstas no contrato.
Antes da retirada da motocicleta, procure entender:
Qual é o valor máximo pelo qual posso ser responsabilizado em caso de dano?
Pergunte também quais situações estão excluídas da cobertura.
Pneus, rodas, acessórios, uso inadequado, condução fora das áreas permitidas ou outras situações podem ter tratamentos diferentes dependendo do contrato.
Outro cuidado inteligente é fotografar ou filmar a motocicleta no momento da retirada, registrando eventuais riscos ou danos existentes.
Cinco minutos de atenção nesse momento podem evitar uma grande discussão na devolução.
4.Escolher uma motocicleta maior do que sua experiência permite
Viajar pelo exterior não é o melhor momento para descobrir se você realmente domina uma motocicleta grande.
É comum que o motociclista pense:
“Já que vou fazer uma grande viagem, quero uma moto grande.”
Nem sempre essa é a melhor escolha.
Uma motocicleta mais pesada exige maior domínio em manobras de baixa velocidade, estacionamentos inclinados, ruas estreitas, pisos irregulares e situações inesperadas.
Além disso, depois de várias horas pilotando, o cansaço altera completamente a percepção do peso da motocicleta.
O melhor modelo para uma viagem não é necessariamente o mais potente ou sofisticado.
É aquele que você consegue conduzir com segurança e confiança durante vários dias consecutivos.
Conhecer seus próprios limites também faz parte do planejamento.
5.Planejar quilômetros demais por dia
Em uma primeira viagem de moto para o exterior, planejar quilômetros demais por dia é um erro especialmente comum.
Aqui está um dos erros mais frequentes em roteiros feitos por quem ainda não conhece o destino.
O motociclista olha o mapa e pensa:
“300 quilômetros? Isso é tranquilo.”
Talvez seja.
Mas 300 quilômetros em uma rodovia rápida são completamente diferentes de 300 quilômetros atravessando montanhas, pequenos vilarejos, estradas sinuosas, mirantes e cidades históricas.
Imagine pilotar pelos Alpes ou pelas Dolomitas.
Você provavelmente vai querer parar para fotografar uma paisagem, tomar um café, visitar um pequeno vilarejo ou simplesmente permanecer alguns minutos observando aquilo que via apenas em fotografias.
Se cada dia for planejado no limite, qualquer parada passa a ser encarada como atraso.
E aí acontece algo curioso:
a viagem começa a servir ao roteiro, quando deveria ser exatamente o contrário.
Um bom planejamento não procura colocar o maior número possível de quilômetros em cada dia.
Procura colocar os quilômetros certos.
6.Criar um roteiro sem margem para imprevistos
Nem tudo acontece conforme o planejamento.
Pode chover.
Uma estrada pode estar interditada.
Um passo de montanha pode apresentar condições diferentes das esperadas.
Alguém pode acordar mais cansado.
Uma parada pode levar mais tempo.
Ou simplesmente pode surgir um lugar tão especial que ninguém queira ir embora imediatamente.
Um roteiro construído minuto a minuto pode parecer extremamente organizado no papel, mas costuma ser frágil na estrada.
Planejamento não significa rigidez.
Um bom roteiro precisa ter estrutura suficiente para orientar a viagem e flexibilidade suficiente para absorver aquilo que acontece durante o caminho.
Essa margem é especialmente importante em viagens de vários dias.
7.Levar bagagem demais
Quem viaja de moto pela primeira vez costuma querer se preparar para todas as situações possíveis.
O resultado frequentemente é excesso de bagagem.
Depois de alguns dias, começa aquele ritual diário:
tirar tudo da moto, abrir malas, procurar alguma coisa, reorganizar roupas e carregar novamente todo o equipamento pela manhã.
Em uma viagem de moto, menos costuma significar mais.
Escolha roupas que possam ser combinadas entre si, aproveite lavanderias durante a viagem e pense duas vezes antes de levar algo que será utilizado apenas “se eventualmente precisar”.
Considere também o espaço ocupado pelo equipamento de pilotagem quando você não estiver sobre a moto.
A pergunta útil não é:
“Será que isso cabe na mala?”
É:
“Eu realmente preciso carregar isso durante toda a viagem?”
8.Depender exclusivamente do celular para navegar
Hoje os aplicativos de navegação são excelentes e o celular pode perfeitamente fazer parte do sistema de orientação durante uma viagem.
O problema é depender de apenas uma solução.
Bateria, superaquecimento, perda de sinal, falha no carregamento ou simplesmente uma configuração incorreta podem transformar algo simples em uma situação bastante inconveniente.
Antes da viagem:
- baixe mapas para utilização offline;
- tenha carregamento disponível na motocicleta;
- salve os hotéis e principais pontos do roteiro;
- tenha uma forma alternativa de acessar o percurso;
- compartilhe o roteiro com os demais integrantes, quando estiver viajando em grupo.
GPS dedicado, smartphone ou roadbook digital podem funcionar muito bem.
O importante é não deixar toda a viagem dependente de um único equipamento.
9.Ignorar clima, altitude e características da região
Olhar apenas a temperatura média da cidade onde começa a viagem pode gerar uma falsa impressão das condições que você encontrará durante o percurso.
Em regiões montanhosas, altitude e mudanças de tempo podem alterar bastante as condições ao longo do mesmo dia.
Você pode sair pela manhã com uma temperatura agradável e, poucas horas depois, encontrar frio, vento ou chuva em uma região mais elevada.
Por isso, a roupa de pilotagem precisa ser pensada para variação de condições, e não somente para a previsão meteorológica da cidade de partida.
Outro erro é escolher datas apenas com base no preço da passagem ou da hospedagem.
Em alguns destinos, a época do ano interfere diretamente na experiência, no movimento das estradas e até na possibilidade de percorrer determinados trechos.
Escolher quando viajar é quase tão importante quanto escolher para onde viajar.
10.Subestimar a logística de uma viagem internacional de moto
A logística de uma primeira viagem de moto para o exterior começa muito antes da retirada da motocicleta.
Esse último erro reúne praticamente todos os anteriores.
Uma boa viagem internacional de moto não começa quando você liga a motocicleta.
Ela começa meses antes.
É preciso coordenar passagens aéreas, hotéis, motocicletas, seguros, documentação, roteiro, bagagem, navegação, deslocamentos, reservas e alternativas para situações inesperadas.
Nada disso significa que seja impossível organizar uma viagem por conta própria.
É perfeitamente possível.
Mas existe uma diferença entre ser possível fazer sozinho e ser a melhor maneira para você viajar.
Alguns motociclistas adoram pesquisar cada detalhe e resolver toda a logística. Outros preferem dedicar sua energia àquilo que realmente desejam fazer: pilotar e aproveitar a viagem.
Nenhuma das escolhas é necessariamente melhor.
O importante é compreender tudo o que está envolvido antes de decidir.
Existe ainda um erro que não entrou na lista
Talvez seja o mais importante deles:
Transformar a viagem em uma corrida contra o roteiro.
Você atravessou um oceano para estar ali.
Talvez tenha esperado anos para percorrer aquela estrada.
Então não faz sentido passar o dia preocupado apenas com o próximo ponto do GPS.
Pare.
Tome aquele café.
Fotografe a paisagem.
Converse com quem está viajando com você.
Faça um pequeno desvio quando valer a pena.
Uma viagem de moto não deveria ser lembrada pelo número de cidades visitadas ou pela quantidade de quilômetros percorridos.
Deveria ser lembrada pelos momentos que aconteceram entre a partida e a chegada.
Primeira viagem de moto para o exterior: viajar sozinho ou em grupo?
Depois de compreender a quantidade de decisões envolvidas, surge naturalmente essa dúvida.
Organizar tudo por conta própria oferece liberdade total para criar datas, percurso e ritmo.
Uma viagem organizada, por outro lado, pode retirar do motociclista boa parte da preocupação com roteiro, motocicletas, hotéis e logística, além de oferecer suporte durante o percurso.
A escolha depende muito do perfil de cada viajante.
Para quem está fazendo sua primeira viagem internacional de moto, entretanto, existe um aspecto que merece ser considerado:
quanto do seu tempo de viagem você quer gastar resolvendo problemas — e quanto quer gastar simplesmente viajando?
Na Friends Adventure, acreditamos que planejamento e liberdade não precisam ser opostos.
Um roteiro bem planejado deve criar condições para que o motociclista aproveite a estrada, e não fazer com que ele passe a viagem obedecendo a um cronograma.
Perguntas frequentes
Preciso da Permissão Internacional para Dirigir para pilotar no exterior?
A exigência pode variar conforme o país de destino e as condições da locadora. Por isso, verifique previamente as regras aplicáveis a todos os países do seu roteiro. Quando utilizada, a PID deve acompanhar a CNH brasileira válida; ela não substitui a habilitação original.
Posso alugar uma moto no exterior com a CNH brasileira?
Isso depende do país e das condições estabelecidas pela empresa de locação. Confirme antecipadamente os documentos exigidos e não deixe essa verificação para o momento da retirada da motocicleta.
É possível atravessar vários países com uma moto alugada?
Em muitos roteiros internacionais isso acontece normalmente, mas a autorização depende das condições da locadora e do seguro contratado. Informe antecipadamente todos os países que pretende visitar.
Qual é uma boa quilometragem diária em uma viagem de moto?
Não existe um número universal. Uma distância confortável depende do tipo de estrada, relevo, trânsito, número de paradas e atrações do percurso. Um roteiro de montanha pode exigir muito mais tempo para percorrer a mesma distância de uma rodovia rápida.
É melhor viajar de moto sozinho ou em grupo?
Depende do perfil do motociclista. Viajar sozinho oferece maior autonomia sobre decisões e ritmo. Viajar em um grupo organizado pode reduzir a preocupação com planejamento e logística e acrescentar suporte durante o percurso.
Planejar bem é parte da viagem
A primeira viagem internacional de moto dificilmente será esquecida.
E boa parte da diferença entre uma experiência cansativa e uma viagem extraordinária está nas decisões tomadas antes mesmo de embarcar.
Conheça o destino.
Entenda a motocicleta.
Leia os contratos.
Respeite seus limites.
Planeje os dias com inteligência.
E, acima de tudo, deixe espaço para aquilo que nenhum roteiro consegue prever.
A primeira viagem de moto para o exterior dificilmente será esquecida.
Porque muitas vezes o melhor momento da viagem é justamente aquele que não estava planejado.





